Valorização da Vida - Prevenção ao Suicídio

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Publicado : 02/10/2017 - Alterado : 06/10/2017

SETEMBRO AMARELO: Pacto do silêncio contribui para fazer do suicídio uma epidemia crescente

Vencer o tabu em torno do suicídio é o principal desafio da Campanha de Valorização da vida e Prevenção ao Suicídio que marca o mês de setembro

Uma das regras básicas para prevenção do suicídio é não falar a respeito na mídia e manter a causa da morte em sigilo quando essa tragédia ocorre com alguém de nossa convivência. Certo ou errado? A psicóloga da política Mais Saúde da GEAP, Carla Ribeiro, não titubeia em dar a resposta. “Errado! Como ninguém fala a respeito, ninguém compreende e também ninguém se prepara para perceber os riscos de suicídio, incluindo os próprios profissionais de saúde”, adverte ela, durante palestra na Escola da Advocacia Geral da União, na quinta-feira (26/9). O resultado desse pacto silencioso contra a vida mostra que a sociedade está no caminho errado: o suicídio tornou-se uma das principais causas de morte no mundo e um dos mais graves problemas de saúde pública, sem uma política de saúde adequada para a sua prevenção.

Numa sociedade que trata a própria morte como um tabu, ainda que se seja um fenômeno tão natural quanto a vida, os casos de suicídio aumentam a ponto de se tornarem uma epidemia: a cada 45 segundos há uma morte desse tipo no mundo. Considerando-se que o sentimento de culpa e de vergonha leva à subnotificação das ocorrências, o número de casos pode ser muitas vezes maior do que o oficialmente registrado, lembra a palestrante, mestre em Saúde Pública pela UFSC e doutora em Saúde Coletiva. O Brasil está entre os dez países com o maior número de suicídios no mundo, o que representa, em média, 27 mortes por dia. Há tendência ao crescimento nas próximas décadas e uma surpresa: a mortalidade mais alta não está nas zonas de maior pobreza, mas na Região Sul. A psicóloga arrisca algumas explicações: a descendência da cultura germânica, que tende a ser muito fechada e a esconder as crises emocionais e a satisfação dos níveis de consumo numa sociedade em que o padrão financeiro tornou-se a maior referência.

Entre os grandes mitos que contribuem para o aumento de casos está o de que a mídia é proibida de tratar do assunto: “Falar de forma espetacularizada ou banalizada pode estimular o suicídio, sim, mas isso não significa que os meios de comunicação não possam ou não devam abordar a questão com profundidade e responsabilidade”, pondera Carla. Assumir o suicídio como um problema de saúde pública significa conhecer os fatores de risco. Entre eles, dois são preponderantes: um episódio anterior de tentativa de suicídio e problemas mentais graves. Há situações que podem igualmente tornar as pessoas mais vulneráveis, como receber notícia de doença grave, enfrentar uma separação; aposentadoria sem preparação e sem projeto de vida; perda de entes queridos; desemprego; problemas financeiros; sentimento de rejeição na adolescência; sobretudo em relação à orientação sexual; abandono na velhice; pessoas em situação de rua; uso de entorpecentes, entre outros. Mulheres cometem mais tentativas do que os homens, mas eles são mais bem-sucedidos em suas investidas.

O impacto desses fatores varia de pessoa para pessoa, segundo características e histórico de vida. Devem ser relacionados aos sinais específicos que cada indivíduo apresenta, indicando que mesmo silenciosamente pode estar alimentando uma ideia de suicídio. O mais importante deles, explica a palestrante, é a mudança abrupta de comportamento. Mas há pessoas que agem imprevisivelmente e antes de cometer o ato fazem uma espécie de faxina ou despacho geral a fim de deixar tudo resolvido antes de desaparecerem. São comportamentos típicos de um suicida, por exemplo, acertar todas as contas, adiantar o pagamento de dívidas, fazer testamento, regularizar imóveis, enfim, definir todas as pendências como se fosse o seu último dia de vida. Dentro da mitologia popular, a maioria das crenças não tem sustentação científica, sobretudo a de que quem quer se suicidar não avisa. "Muitas vezes o aviso pode ser visto como um pedido de socorro", afirma a psicóloga.

A ameaça de suicídio ronda o desemprego, a aposentadoria e também as relações de trabalho. Entre as causas de afastamento, a depressão e as doenças de fundo emocional são a segunda mais recorrente, complementa a coordenadora do SIASS no INSS em Florianópolis, Vera Lúcia dos Santos, que também participou da palestra. A procuradora federal Vania Faller, que coordena a Escola da AGU e a campanha do Setembro Amarelo entre os órgãos públicos federais, chama atenção para a necessidade de se perceber as situações de risco e os sinais que um colega de trabalho pode apresentar de que está vivendo uma situação perigosa de sofrimento ou mesmo de desespero. O assédio moral, a pressurização e automatização das atividades sem discussão da sua relevância, o autoritarismo das chefias fazem com que o servidor perca o prazer pelo que faz e as referências éticas profissionais, lembra Cleber psicólogo do INSS no Serviço de Qualidade de Vida no Trabalho. Numa sociedade regulada unicamente pelo dinheiro, a perda do sentido do trabalho como uma atividade que transforma o meio e contribui para a humanidade agravam o problema.

A participação de apenas 15 pessoas na palestra “Valorização da vida; Prevenção ao Suicídio”, a maioria profissionais da área de assistência social, Qualidade de Vida e Saúde do Trabalhador do INSS e de outros órgãos federais, mostra por si só o preconceito em torno da questão. Para aprender a evitar o suicídio, é preciso compreender a tristeza, a frustração. “É preciso falar sobre a morte, sobre a eutanásia e sobre o valor da vida sem dogmas, sem julgamentos, sem culpas, sem medo”, adverte Carla. Enquanto o assunto não estiver na pauta dos meios de comunicação, na roda de amigos e nas políticas públicas de saúde, continuaremos sendo cúmplices de gestos de desespero que muitas vezes poderiam ser evitados com uma atitude simples e gratuita: ouvir o outro. Para todos os casos, o primeiro remédio é acolher o desabafo dos que sofrem, deixar que compartilhem sua aflição e, sempre que necessário, encaminhá-lo para ajuda médica. Como uma medida de saúde para nós mesmos e para nossos amigos, deveríamos anotar entre os contatos de emergência, o do Centro de Valorização da Vida: (48) 3222-4111.

Raquel Wandelli, Jornalista ACS/SC.


 
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